09 dezembro 2012

Onde está a contracultura?


Estamos no mundo mas não somos do mundo. Somos o sal da terra, a luz do mundo. São palavras de Jesus sobre nós. Os cristãos são chamados por Ele para ser contracultura. “Eles não são do mundo, como eu também não sou” (Jo 17.14). Isto significa que lutamos pela pureza: dentro de nós, no caminho tão pessoal e bonito da santificação, pela graça de Deus; e também fora de nós, denunciando a crueldade do pecado e convidando a outros para que sigam o mesmo caminho, escorados de igual modo na graça de Deus. Quando o fazemos fora de nós, confrontamos não só os incrédulos, para que se convertam, mas também os próprios crentes, para que deixem determinados pecados e se santifiquem, desatando os laços com outros (falsos) doadores de identidade – bens materiais, aparência, ideologias, saberes, profissões, condição social etc. Nossa identidade realmente última deve ser Cristo em todas as esferas da vida.

Quando o cristão adere inadvertidamente ao culto a um ídolo mundano, incorporando ao cristianismo elementos espúrios, esse chamado de Cristo tende a se tornar inócuo. Afinal, se nossa identidade é partilhada entre Cristo e ídolos, não nos diferenciamos do mundo o suficiente para salgá-lo. E o sal que não salga “só presta para ser pisado pelos homens” (Mt 5.13). Esse culto ambíguo e informe recebe um nome na filosofia reformada: “síntese”. E há muito mais sínteses do que conseguimos identificar, certamente: como dizia Calvino, o coração é uma incansável fábrica de ídolos.

No blog, e também no livro, uma das sínteses mais presentes em minha denúncia do pecado é a que mistura cristianismo com esquerdismo. Dediquei longo tempo ao estudo do esquerdismo em suas variadas formas – soviético, chinês, cubano, politicamente correto – e ainda pretendo fazê-lo muito mais. Porém, sabendo que o pecado nos empurra para extremos que apenas parecem opostos, mas são análogos, tenho ocupado minha mente hoje com a síntese que indiferencia cristianismo e conservadorismo – ou, de modo mais específico, cristianismo e luta contra o esquerdismo (ou luta cultural). Encerro a ambas as sínteses – com esquerdismo e com conservadorismo – sob a expressão “politização da fé”.

O que ocorre quando o cristianismo se dilui na politização da fé? A luta contra o pecado se torna predominantemente exterior, quando na verdade é primordialmente interior – ou seja, sempre se inicia com a identificação dos pecados íntimos, seguindo-se com arrependimento, perdão e cura diante de Deus. De fato, esse autoexame é uma condição sine qua non para o exame adequado dos pecados exteriores, conforme enfatizou Jesus em Lucas 6.41-42. Se não conhecemos nem nossos próprios pecados, como enxergaremos o pecado alheio?

Em Letters of Francis A. Schaeffer [Cartas de Francis A. Schaeffer], o grande apologista apresenta um referencial para que a importância da interioridade na vida cristã seja preservada, representado por um esquema onde aparecem três círculos concêntricos:

O círculo da apologética se correlaciona com “a aplicação da teologia à incredulidade” (John Frame), ou seja, com a luta da verdade contra a mentira que reside no coração humano (a começar pelo coração do próprio apologista: não esquecer Lucas 6.41-42). O das doutrinas diz respeito à afirmação positiva da fé cristã. E o interior é de onde fluem “os rios de água viva”, onde ocorre a conversão, onde se dá o relacionamento pessoal da alma individual com Deus . Sem o interior, nenhum dos outros dois pode constituir um cristianismo legitimamente bíblico. Sem o interior, de fato, não pode haver um salgar efetivo, pois somente nos diferenciamos do mundo à medida que nos deixamos transformar por Cristo.

Para Schaeffer, e também para mim, não há alternativa a não ser pedir a graça de Deus para que cada um desses círculos esteja em seu devido lugar na nossa vida. Porque somos pecadores, nossa tendência sempre será nos afastar de Deus para manter nossos pecados intactos (Jo 3.19). Então, para disfarçar esse afastamento, tenderemos a substituir a vida interior com Deus pela luta exterior com as pessoas, as ideologias, os pais, os professores, o “sistema”, achando que servimos a Deus com isso, sem perceber o quanto estamos secos por dentro. É quando o empunhar das armas toma o lugar da novidade de vida em Cristo. Se você acredita ter caído nessa armadilha, talvez ajude lembrar que estamos soldados neste mundo, mas nossa verdadeira natureza é de adoradores: amar a Deus e aos irmãos é o que faremos por toda a eternidade.

É precisamente nessa inversão – que suprime a primazia da vida interior e a substitui pela luta cultural – que eu identifico o cruzamento entre esquerdismo e conservadorismo como sínteses com o cristianismo. A única diferença é que não creio ser possível, para o cristão, aderir ao esquerdismo sem realizar sínteses, enquanto o conservadorismo, por ser a posição mais natural biblicamente, pode ser adotado sem corromper o cerne da fé. Porém, isto não significa que o cristão conservador deva se sentir imune ao mecanismo da inversão – e de fato, nesses tempos em que (finalmente!) as posições conservadoras “saem do armário” e se mostram à luz do dia, vários exemplos desse mecanismo já podem ser percebidos. Ainda tratarei mais disso aqui.

35 comentários:

Marco Carvalho disse...

MUito bom o texto. Gostaria de saber algumas indicações de livros em português sobre o esquerdismo. Como cristão devemos aprender a defender nossa fé e dar razão da mesma aos incrédulos.

Marco Antônio

Fernando Pasquini disse...

Norma,

Artigos como esse, tal como também o seu livro, são alguns dos textos que mais me motivam a viver e trabalhar pelo Reino. As sínteses são muito bem encontradas no meio acadêmico, e eu consigo ver ainda muito mais na área de pesquisa em tecnologia e engenharias. E dessa forma, não consigo pensar em outra coisa a fazer senão estar aqui dentro e fazer alguma coisa.

Que Deus nos use para realizar os seus propósitos no nosso país tão carente de uma pura e genuína cosmovisão cristã. Já sei que Ele está operando algo maravilhoso, por causa do tamanho da alegria que sinto em ter irmãos e irmãs como você, o André, e tantos outros. Eu e a Jemima queremos estar sempre por aqui, e dispostos a sempre estudar, escrever, e trabalhar para que Cristo "reconcilie consigo todas as coisas". E vocês podem sempre cobrar da gente. =]

Um abraço, com carinho,
Fernando

Rafael Galvão disse...

Norma, eu me sinto parecido com você; eu costumava ser conservador quando eu comecei a ler seu blog, e até achava que estava fortalecendo a minha posição. E hoje eu não me considero conservador, portanto eu não posso concordar biblicamente com a afirmação de que o conservadorismo é "a posição mais natural biblicamente".

Isso para mim está errado, porque eu percebi que o conservadorismo cega as pessoas, porque impede que elas tenham autocrítica, uma coisa como o racismo que foi aceita durante muito tempo como biblicamente aceitável só foi desafiada porque as pessoas desafiaram a ideologia conservadora que a sustentava, ignorando versículos chaves como o fato de que em Cristo somos filhos de Deus sem distinção (Gálatas 3:28,29); quando eu percebi nos movimentos sociais que não tinham conservadores (pode ser até que tinham, mas o problema é que eles eram irrelevantes), apenas esquerdistas, é que aparece o problema. Os cristãos que criam na Bíblia eram para estar na vanguarda da desegregação racial, mas eles estavam na vanguarda da manutenção desta.

No Império Romano, o cristianismo foi revolucionário, foi esquerdista para a época e por isso foi perseguido, o que demonstra o quanto esses termos mudam.

Eu vi que o conservadorismo era incapaz de entender a sociedade por causa de sua rigidez na faculdade, não lendo Marx ou outro autor esquerdista, mas Hayek, veja seu texto "Why I am not a Conservative". E lendo Karl Polanyi, que era um socialista, não-marxista e cristão, eu vi muito mais influência do pensamento cristão do que em qualquer liberal-conservador.

Lamento Norma, mas eu vou dar dislike no texto por causa disso, você está usando a Bíblia para justificar a sua ideologia conservadora. Um cristão esquerdista faria a mesma coisa, usaria a mesma estrutura de argumentação que está presente nesse texto.

Rafael Galvão disse...

E Francis Schaeffer disse: "A maior injustiça que se pode pedir a um jovem é pedir que ele seja conservador. O Cristianismo não é conservador, mas revolucionário. Ser conservador é não entender o principal, pois o conservadorismo significa permanecer na corrente do status quo, e isso não mais nos pertence.”

Norma disse...

Marco, um dos principais, a meu ver, é o de Alain Besançon, A infelicidade do século, sobre as semelhanças entre nazismo e comunismo. Há muitas outras indicações em meu blog, como O livro negro do comunismo, Origens do totalitarismo etc., além de biografias sobre Mao, Stálin, Fidel Castro. Leia tudo o que puder e va tirando suas conclusões. Abraço!

Norma disse...

Querido Fernando, muito obrigada! :-) Ore sempre por nós, viu? Beijo pra você e a Jemima!

Norma disse...

Rafael, obrigada pela sinceridade. Em sua mensagem, você mostra uma confusão bastante comum entre o uso geral do termo "revolucionário" e o uso mais específico, moderno e político. Isso me motivou a escrever outro post, que em breve, depois de algumas correções, será publicado. Abraços!

Marcio Estanqueiro disse...

Olá Norma!

Compartilho da mesma visão que a irmã, e também acho que não podemos nos calar quanto a esse movimento que tem surgido no meio cristão. Não cabe aqui mencionar nomes, mas tem surgido pessoas com capa de cordeiro, mas são lobos querendo arrebatar o rebanho do Senhor. Precisamos estar alertas. Escrevi um artigo sobre esse movimento em: http://www.paocomazeite.blogspot.com.br/2012/11/inversao-de-valores.html fala de outra forma como você falou aqui.
um abraço.

Norma disse...

Muito bom, Márcio! Meu coração se enche de tristeza quando penso, por exemplo, na ação afirmativa entrando nas igrejas, pervertendo o coração dos nossos irmãos negros ao instilar neles justamente a autoconfiança que você menciona no seu texto, uma autoconfiança que vem do fato simples de sua cor de pele, em vez da confiança pura em Jesus. Precisamos continuar estimulando a igreja a discernir essas coisas. Abraço!

Norma disse...

P.S. Márcio, se são falsos mestres, cabe sim mencionar nomes (não necessariamente aqui, mas nos textos), pois precisam ser desmascarados. Em vários momentos, Paulo menciona pessoas que estavam fazendo mal à igreja de Cristo. Abraço novamente!

Marcio Estanqueiro disse...

Norma, por incrível que pareça, a Igreja que estou frequentando a PIB do Recreio(RJ) apoia alguns irmãos assim. Ariovaldo Ramos entre outros. Sempre fui membro da ADeus Pr.Silas, e agora que estou indo para PIB, por razões familiares, estou pensando seriamente como deverei me portar. Existe a revista ELOS da PIB que já publicou uma de minhas mensagens, e quando enviei essa último sobre a situação das Igrejas, o editor quer conversar comigo. Talvez uma ótima oportunidade. Aproveito para lhe dizer, que acrescentei o teu blog na minha lista. Posso? abraço.

Norma disse...

Sim, uma boa oportunidade! Não deixe de me contar o resultado da conversa. Pode me mandar um email, se preferir, ou me adicionar no Facebook. O esquerdismo é o fundo cultural comum nosso aqui na América Latina, infelizmente. Fico feliz porque a sobriedade do seu texto mostra que você tem boas chances de ajudar alguns irmãos a discernirem melhor a incompatibilidade entre esquerdismo e fé cristã. Precisamos tomar cuidado para não fazer isso de modo agressivo ou precipitado: muitos têm caído nesse erro. A unidade em Cristo deve prevalecer sempre. Quanto ao blog na sua lista, claro que pode! :-) Abraço!

pretinha disse...

Rafael Galvão

Não consegui entender a ligação que você faz entre esquerdismo e rejeição ao racismo. Quando o abolicionismo começou, as doutrinas esquerdistas modernas nem existiam.

Você considera que os cristãos primitivos seriam esquerdistas, mas isto para mim também não faz sentido. Esquerdismo necessariamente busca o continuo aumento do poder do estado, principalmente sobre a consciência das pessoas. O esquerdismo também busca que todas as instâncias de atuação das pessoas sejam, ou aparelhadas pelo estado, ou combatidas e destruídas. Ora o cristianismo primitivo era o contrário disso. Quando Jesus disse "a Cesar o que é de Cesar, e a Deus o que é de Deus", isso foi revolucionário, porque significa que há áreas onde Cesar não deve ter jurisdição. Isso é a coisa mais anti-esquerdista que eu posso imaginar.

No tempo dos apóstolos, a religião era um assunto de estado. Não foi sem motivo que o império perseguiu os cristãos. Eles rejeitavam a jutisdição do império sobre sua fé e suas crenças. Isto é o contrário do esquerdismo. Todos os mais influentes intelectuais e políticos esquerdistas atuais, pretendem construir um estado muito mais intrometido na fé, nas crenças, nas famílias, e nos pensamentos, e nos comportamentos privados das pessoas, do que o império romano jamais foi.

Você está enchergando uma imagem invertida das coisas. Talvez você esteja comprando certos discursos esquerdistas pelo valor de face.

Marcio Estanqueiro disse...

Rafael Galvão, permita discordar de você e defender o ponto de vista da Norma. Acho que você não está entendendo bem o objetivo e o aviso que ela passa com o texto que postou. O esquerdismo de hoje é responsável por trocar o sentido das palavras. O que é preto o esquerdismo chama de branco e vice versa. Precisa ter muito sensibilidade, saber exatamente como se comporta essas ideologias que querem confundir aqueles que ignoram seu objetivo. Quer ver um exemplo? Existem dois sentidos para a palavra Liberal. A esquerda joga com esses sentidos. Na verdade o Liberalismo não tem nada de esquerda, mas eles podem se apropriar da palavra no seu sentido restrito, ou seja um liberal aceita e defende as minorias, como o racismo.
Para a esquerda o aborto é visto como algo certo, pois trata-se da “liberdade” da mulher e sómente ela tem o direito de fazer o que quer. Mas, analisando pelo lado moral e divino é um grande erro.
O exemplo que você citou se torna ainda mais claro daquilo mesmo que vc diz não entender. Os cristãos não devem estar na vanguarda da manutenção da desegregação racial, porque como vc mesmo afirma em Gl.3:28-29 essa já é a nossa posição. Os esquerdistas então se apropriam desse sentido para de forma “misturada” defenderem essa desegregação ao sentido deles. Isso é “proselitismo”, coisa que não precisamos fazer nem demonstrar como cristãos.
Não vi no texto da Norma, nada parecido como você colocou como os cristãos primitivos serem esquerdistas. Será que você “pegou” essa doença?
Um abraço.

Edward Wolff disse...

Excelente texto, Norma, meus parabéns. Na minha opinião, um dos melhores de seu blog. Ele me fez lembrar de muitos santos da Igreja Ortodoxa que ensinam que o melhor que podemos fazer pelo mundo é eliminar nosso próprio ego dele. Parece-me algo muito semelhante quando diz que "A luta contra o pecado [...] na verdade é primordialmente interior – ou seja, sempre se inicia com a identificação dos pecados íntimos, seguindo-se com arrependimento, perdão e cura diante de Deus."

Marco Carvalho disse...

Obrigado pela indicação dos livros Norma!
Lendo os comentários anteriores parece-me que há um movimento no Brasil e em muitas igrejas evangélicas um entrelaçamento forte com o liberalismo teológico. Não consigo imaginar um cristão que apoia leis totalitárias disfarçadas de piedade e amor ao próximo. Basta olharmos o que os países onde o Estado teve autoridade suprema em questões de ordem privada o que ocorreu. Olhemos para a antiga URSS, Alemanha, China, etc. Nos países de berço protestante há uma secularização da igreja que acaba influenciando a cosmovisão dos cristãos. Devemos seguir a orientação paulina de levarmos nossa mente cativa a Cristo para destruir suas fortalezas.

Norma disse...

Pretinha e Marcio,

O trunfo do esquerdismo nos países (ainda) democráticos é esse: fazer-se passar por cosmovisão transparente, mainstream, como o próprio ar. Aparentemente, o Rafael se deixou levar pela manipulação emocional esquerdista com sua ênfase no "amor aos pobres", e foi capitulado pelo coração (muito comum!). Além disso, ele não entendeu que o conservadorismo não é uma ideologia, e por isso me acusou de propagá-la assim como um cristão esquerdista faria com o esquerdismo - uma confusão também comum. Ele parece ser jovem e precisa de mais leitura e vivência para entender que o que sempre moveu os sistemas socialistas e comunistas NÃO FOI o amor aos pobres, mas o amor ao poder e ao dinheiro, além de um impulso demoníaco para a destruição das populações, como a história tanto demonstra. Esse impulso estará presente sempre que o Estado ocupar um lugar grande demais.

No próximo post que sairá na segunda-feira (agora será meu dia de atualização), tento desfazer essas confusões explicando o que é o conservadorismo.

Obrigada por suas valiosas observações. Abraços!

Norma disse...

Wolff, há quanto tempo!

A ênfase cristã na interioridade é mesmo maravilhosa. Cristo nos deu vários exemplos disso, dos quais talvez o maior seja a reinterpretação profunda das leis judaicas (no Sermão da Montanha), "ouviste o que foi dito aos antigos...". Além disso, mostrou o quanto essa ênfase é central ao resumir toda a lei no mandamento de "amar" a Deus e ao próximo - que, longe de ser puro comportamento moralista, é interior primordialmente! E o que é igualmente belo é que Deus só pode nos ordenar "amar" porque Ele mesmo nos transforma o suficiente para amar. Somente em Cristo (que disse "Sem mim, nada podeis fazer", Jo 15.5) poderemos cumprir esse mandamento, e mesmo assim não o cumprimos em totalidade enquanto estivermos neste mundo.

Fiquei feliz por você ter gostado do post. Grande abraço!

Norma disse...

Marco, é verdade! Por isso, aqueles irmãos que se sentem aptos para tal devem se instruir sobre o caráter destrutivo desses regimes, para melhor orientar os que se sentem tentados para a miragem do "mundo melhor" por meio do estatismo. E sim, liberalismo costuma se entrelaçar com esquerdismo, pois o esquerdismo é a ideologia que vem preencher o vácuo quando a fé verdadeira vai embora. Precisamos mostrar que não há "liberdade" alguma no liberalismo. Abraços!

Norma disse...

Faltou dizer uma coisa ao Rafael: cuidado com "quem aparece" nesses movimentos sociais. As maiores benfeitorias pelos pobres que já presenciei foram realizadas anonimamente, sem alarde, de acordo com a orientação de Jesus. Conheço muitos conservadores que se envolvem com ações pelos pobres (não "movimentos sociais", ideologizados e pró-socialismo). São plantadores de igrejas em regiões praticamente desérticas, são pastores que abrem creches e escolas gratuitas, são pregadores que arriscam a vida para levar mantimentos e bíblias a povos empobrecidos por regimes totalitários... e por aí vai. Você ainda vai descobrir que quem mais aparece como "benfeitor dos pobres" aos olhos do grande público é quem mais fala, somente, sem fazer grande coisa, mas com muito dinheiro por trás para implantar a tal revolução socialista. Vou orar para que você consiga enxergar essas coisas, Rafael. Abraços.

Rafael Galvão disse...

Bem, eu deveria mesmo ter sido mais direto na minha argumentação: eu não afirmei ser esquerdista socialista. Eu creio que devo ser esquerdista no mesmo sentido em que um copo é meio cheio ou meio vazio (não que ser esquerdismo é copo cheio e vice-versa, mas na natureza da analogia), não porque eu me filiei a alguma organização ou acredito na revolução socialista. Eu achei que eu tinha implicado isso ao citar o Hayek, que eu não sou socialista. Você acha que um socialista que se preza citaria tão positivamente o Hayek?

Eu só acredito que o conservadorismo se calou em relação a esses assuntos que a esquerda preza, mas por acaso esses conservadores que você cita têm uma teoria para isso? O socialismo desenvolveu uma teoria que engloba isso, falha, mas desenvolveu. E esse é outro ponto e, que há um problema: a identificação de conservadorismo com liberalismo. O que me incentivou a abandonar o conservadorismo foi essa identificação, principalmente quando eu percebi o quanto os conservadores citavam o Rothbard, fundador do anarco-capitalismo; esse cara é mais anticristão que o Marx, e vários conservadores cristãos citam ele positivamente.

Eu sou jovem, fazer o quê né? Mas uma coisa eu aprendi: realmente não existia esquerdismo, como vemos hoje naquela época, essas coisas são cíclicas, palavras mudam, como o Marcio falou, mas é um processo que ocorre, um processo que ocorre por meio de ordem espontânea, o significado das palavras mudam. Porque o liberalismo era associado à esquerda nos EUA diferente da Europa? Por que o que veio primeiro nos EUA foi o liberalismo teológico, e isso antes da esquerda tomar a forma moderna, e o liberalismo teológico tinha identificação paralela na ideologia de livre-mercado.

Rafael Galvão disse...

Continuando, No fim, 'conservadorismo' é uma também uma palavra sujeita a esses processos, Hannah Arendt disse "O revolucionário mais radical se torna um conservador no dia seguinte à revolução." É engraçado quando você percebe que o grande sonho de um revolucionário é se tornar conservador, isso porque um revolucionário não luta apenas para subverter o status quo, mas também para instaurar um novo. E no futuro, ele vai reclamar dos revolucionários futuros querendo 'subverter a sociedade'. Se é uma coisa boa, desejável, merecida, insira qualquer termo de sua preferência aqui, ou não aí já é outra história que vai necessitar de análise de contexto, utilidade, e afins, mas a lógica não muda muito. De novo, a mutação das palavras.

O problema que eu vejo no conservadorismo é que não se tenta construir uma teoria de inovação, uma teoria de serviço social, entre outras coisas, o problema é a própria natureza do conservadorismo, cuja força deriva de fazer com que as coisas permaneçam do jeito que estão, a manuntenção de um passado idílico que talvez nunca existido, como o segregacionismo. Esse que é o problema, Márcio, a igreja que deveria obedecer o que se diz em Efésios rejeitou ativamente esses versículos, eles não praticavam esses versículos e adotaram essa não-prática como norma cultural, caso contrário então os movimentos anti-segregação não eram nem para ter ocorrido porque não seriam necessários. Será que eu seria racista se tivesse nascido numa família branca, nominalmente cristã, de classe alta nos EUA de 1870? Esse que é o ponto, depois que o racismo foi institucionalizado e legalizado, houve uma luta tremenda para desinstitucionalizá-lo e deslegalizá-lo, e os que se identificam como conservadores tiveram participação mínima nesse processo, muito pelo contrário.

Sabe a Revolução dos Bichos, do ditado, "duas pernas ruins, quatro pernas bom"? Você não faz ideia do quanto eu cresci ouvindo "conservador bom, esquerdista ruim" e quando eu fui lidar com as pessoas eu percebi que a realidade é muito mais complexa do que se imagina. Eu sinto que foi cometido o mesmo erro ao me associar automaticamente com a sua visão de socialismo. Se eu for socialista, eu não creio que um socialista me aceitaria como tal, de fato, uma vez eu até conversava com um conhecido marxista em uma conferência de economia e quando disse a ele que "devemos ler os originais, tanto do Marx quanto do Hayek". Quando eu falei em Hayek, ele me olhou com uma cara de desdém.

Rafael Galvão disse...

Continuando, A realidade que eu observo é muito mais complexa do que a que você tenta me apresentar, Norma. No fundo eu acredito que a expressão 'conservadorismo cristão' tem tanto valor teológico quanto 'liberalismo cristão' ou 'socialismo cristão', porque são todas ideologias com boas intenções, já que estão todos tentando salvar o mundo, mas ultimamente elaboradas por homens e mulheres pecadoras, e que um cristão não deve perder consciência disso (afinal, quantas vezes a Bíblia nos alerta para o pecado da idolatria? Do Gênesis ao Apocalipse). Eu simplesmente não consigo acreditar que o conservadorismo seja "a posição mais natural biblicamente", porque eu vejo ambas as posições como tendo mesmo valor teológico. Estarei orando a nosso respeito também.

A propósito, eu acredito no que você falou sobre o socialismo se importar só com dinheiro, pra dizer a verdade eu não discordo disso. A grande sacada de Marx foi olhar para a revolução industrial e perguntar, "porque isso deveria ser uma coisa obrigatoriamente boa?". E a falta dessa pergunta foi o seu maior desastre, ele nunca olhou para o socialismo e perguntou, "porque essa obra das minhas mãos deveria ser uma coisa obrigatoriamente boa?" E deu no que deu, gulags, destruição, porque eles falharam em entender a complexidade social, o que ao invés de eliminar as classes sociais, aprofundaram suas diferenças. Então Norma, eu peço que você se pergunte: "porque a minha definição de conservadorismo deveria ser obrigatoriamente uma coisa boa?" (falo definição pessoal, porque eu estou levando em consideração a frase de Schumpeter "in science as elsewhere, we fight for and against not men and things as they are, but for and against the caricatures we make of them", o que eu identifico como uma das fontes de nossas discordâncias).

Norma disse...

Rafael, você parece não distinguir muito bem dois usos da palavra "conservadorismo": o "conservar por conservar", ou tradicionalismo, e a posição política em contraposição ao socialismo e ao liberalismo. Uso "conservadorismo" na segunda acepção.

Nessa segunda acepção, por que a minha definição de conservadorismo deveria ser uma coisa boa? Essa definição será boa SE E SOMENTE SE meu conservadorismo estiver sujeito à Palavra de Deus EM TUDO. E isso é possível (até o ponto em que Deus nos possibilita a santidade neste mundo, obviamente). Dentre as opções políticas disponíveis, a meu ver, somente o conservadorismo pode se adaptar ao cristianismo. Não creio ser possível um socialismo ou um liberalismo político que se sujeite à Palavra, porque seus pressupostos estão errados já na base. Vou falar disso tudo na próxima postagem.

Quanto ao racismo, não creio que seja algo inerente ao conservadorismo como posição política, mas é inerente aos racistas, apenas. Considerar o racismo uma posição típica de conservadores não é justo com os muitos cristãos conservadores que lutaram pelo fim da escravatura, por exemplo. Por isso eu digo que você precisa refletir melhor sobre seu uso da palavra. Talvez a minha postagem de amanhã ajude. Abraços!

Norma disse...

P.S. Essa associação entre racismo e conservadorismo foi comum (não sei até que ponto ainda é) na cultura do sul dos Estados Unidos. Ali, de fato, foi conservado o que não se devia: não houve submissão à Palavra de Deus nesse ponto. Piper trata disso em um livro sobre racismo, pois ele mesmo nasceu nessa cultura e se livrou desse pecado com a graça de Deus, olhe que maravilha - recomendo-o MUITO sem ter lido, mas ele está aqui na minha estante. ;-)

Rafael Galvão disse...

Ok, aguardo seu post amanhã.

Tiago disse...

Cara Norma,

Depois deler os comentários neste post lembrei deste artigo aqui

http://pjmedia.com/andrewklavan/2012/04/16/why-racism-and-conservatism-dont-mix/?singlepage=true

que trata do problema do conservadorismo e do racismo de maneira breve e direto ao ponto.

Tiago

P.S. Alguém aí se lembra do Joaquim Nabuco? Do William Wilberforce? Estes posts do Rafael parecem ser mais um caso de "se os fatos não se encaixam na minha teoria, pior para os fatos."

Norma disse...

Que artigo bacana, Tiago! E, como jazzmaniac, adorei isto:

"What good’s a doctor anyway in a world without jazz?"

Obrigada mesmo! :-)

Marcio Estanqueiro disse...

Olá Rafael!

Parece que vc não me entendeu bem. Se vc diz que não é conservador simplesmente porque essa posição vai tolhir sua autocrítica, vc está muito mal meu amigo. Se digo que sou conservador, digo isso porque fiz uma opção, porque defendo o conservadorismo, suas regras e sua ideologia. Não sou obrigado a ser diferente do conservadorismo para dizer que sou revolucionário, e contrário ao que diz o Evangelho para me adequar a revolução que não é conservadora, e sim social.

Rafael, os termos mudam sim, mas devem estar inseridos no contexto dos tempos a que eles se referem. Também devemos ter muito cuidado em absorver o sentido exato dos textos e conhecer profundamente o que eles dizem. Por exemplo: Você citou Rothbard como sendo fundador do anarco-capitalismo. Como vc pode comparar Marx com Rothbard? Um não tem nada a ver com o outro. O Libertarianismo e o Socialismo são distintos na comparação com o Cristianismo.

Eu de certa forma o cito positivamente, e acho que o Socialismo difere do mesmo porque traz na sua essência o eterno ódio diabólico, um verdadeiro complexo de Lúcifer. Assim é todo esquerdista, todo marxista, pois têm ódio, inveja dos indivíduos mais bem-sucedidos do que ele. Eles duvidam do esforço próprio, do preparo e da liberdade que os indivíduos possuem para alcançarem uma situação melhor. É a luta entre a igualdade pela liberdade.

Por favor Rafael, assim mesmo essas ideologias são políticas e econômicas, jamais poderão ser comparadas ao Cristianismo, porém como disse acima cada uma tem o seu papel contra ou a favor do mesmo.

As palavras mudam sim Rafael, mas não podemos relativizá-las. Podem até serem mudadas, mas pedra sempre será pedra, seja a roupagem que colocarem sobre elas.
Concordo contigo sobre o Liberalismo nos EUA, mas sabemos que essa distinção só existem para aqueles que a manipulam. Um liberal economicamente falando, a favor do livre-mercado, certamente jamais será um marxista que é contra o Cristianismo.

Hannah Arendt certamente não está falando sobre Cristianismo, e a igualdade que ela prega na política seria a liberdade de escolha de cada um, e esse sentido não deve ser comparado com o sentido de um revolucionário, pelo menos creio assim.

Rafael, vejo você se ligando a coisas pequenas que estão muito claras na Bíblica. Nos vvs. 28 e 29 em Gálatas, Deus não fez e não faz hoje distinção. Quem muda essa conceituação é o homem, talvez para obter algum benefício próprio.

Rafael, você não pode pegar a sua experiência e colocar na cabeça de todos, cada um tem a sua, desculpe a franqueza, mas se vc cresceu escutando seja o que for, isso pode ter-lhe causado algum complexo. Outra coisa é você jogar todas as ideologias dentro do mesmo saco. Veja no decorrer da História, qual delas trouxe mais desgraças ao ser humano, existem lógicamente entre elas muitas diferenças.

A sua realidade, desculpe a franqueza novamente, é muito superficial. O Marxismo ou Socialismo é uma revolução muito pior do que você imagina, pois ela nega a Cristo, dizendo ser justa, e por isso acha que pode salvar os pobres e oprimidos. Eu não vejo o O Conservadorismo e o Liberalismo Econômico como pensamentos que tentam salvar o mundo. Na verdade a salvação vem por CONSERVAR os preceitos da doutrina cristã.

Para terminar Rafael, novamente sou favorável a opinião da Norma, você ainda não conseguiu distinguir o sentido exato e, quando deve ser empregada a palavra conservadorismo.

Marcio Estanqueiro disse...

P.S Norma, vamos aguardar ansiosos pelo texto de amanhã.

Aproveito para dizer que obtive resposta do meu texto sobre a publicação. Parece que ele vai publicar na revista, como também enviei outro que está no meu site e eles vão analisar.
http://www.blogdoestanqueiro.blogspot.com

Marcio Estanqueiro disse...

Norma, poderia publicar o seu post: Por que não sou de esquerda, no meu blog acima?
Abs.

Norma disse...

Marcio, pode publicar sim! Depois vou a seu blog para dar uma olhada. Obrigada pelo link e pela informação. Abraços!

Rafael Galvão disse...

Marcio, agradeço por sua franqueza, você realmente me respondeu, ao invés de me trollar como fez o Tiago acima. Temos definições diferentes de termos, não consigo aceitar esse argumento "não se pode comparar X com Y" e eu poderia dar as razões pelas quais eu penso assim, mas eu sinto que já exauri tudo o que tinha que falar nesse post. Minha visão é superficial, mas já foi pior.

Aprendiz disse...

Rafael

O que se chama atualmente de esquerdismo não existia nos EUA quando a escravidão foi abolida. Então, todas as pessoas que lutaram contra a escravidão naquela época eram o que hoje se chamaria de "conservadores". Não criam que o estado deveria mandar na economia, não criam em "engenharia social" não criam em cotas nem em "ações afirmativas", não criam que a família deveria ser combatida e destruida, não criam que o homem, o branco e o protestante eram maus por natureza, não criam que o máximo de pessoas deveriam ser dependentes economicamente do estado. Qualquer dessas pessoas, se recussitasse de rempente agora, odiaria o esquerdismo. Então, porque associar esquerdismo a combate ao racismo? O esquerdismo "pegou" essa bandeira simplesmente porque é da sua natureza se fazer de bom e acusar os que se opõem a ele de serem maus. Retroativamente, mudou a história, e fez a luta contra a escravidão parecer uma luta dos esquerdistas contra conservadores. Esquerdismo é propaganda e buasca do poder.

A própósito, foi o partido republicano que propôs a abolição da escravidão, e foi o partido republicano que probiu a segregação em espaços públicos. E o que fazem de tão "bom" os "democratas" nos dias de hoje, em favor dos negroa? Querem convencê-los de que eles devem sempre permancer como dependentes da "ajuda" do estado.

Aprendiz disse...

Rafael

Outra coisa. Uma teoria errada é pior que teoria nenhuma. Pessoas bem intencionadas, quando percebem que não tem capacidade para lidar com um assunto, preferem não dizer nada a dizer bobagens. Mas aqueles que buscam parecer melhores e mais justos que os outros, dizem o que as pessoas querem ouvir. Sem ter compromisso com a verdade, é facil ser "propositivo".