06 novembro 2016

Palestra em São Paulo

Estarei em São Paulo participando do I Congresso Internacional de Ciência da Religião da Universidade Mackenzie, com a palestra: Considerações sobre idolatria à luz da teoria mimética de René Girard". ESerá na terça-feira às 16h10. Veja a programação completa aqui.

UPDATE: Não poderei mais participar do congresso. Fiquei doente. :-( Não é nada sério, mas vai me impossibilitar sair de casa por alguns dias!

05 maio 2016

Diálogos (revolucionariamente) irrelevantes VII

Ou: Como inventar um terrorismo evangélico e depois lavar as mãos


A ira do homem não produz a justiça de Deus (Tg 1.20).

Depois da reunião dos jovens, alguns se juntam para conversar. Um deles sempre começa suas frases com “mas peraí”...

– As igrejas são opressoras. A maioria delas trai o chamamento de Jesus. Em vez da fragilidade da sensibilidade que evoca o amor, a igreja virou uma comunidade institucionalizada. Precisamos de novas narrativas libertadoras, ao invés de encontros e retiros improdutivos, individualistas*.
– Sim! 
– Então… Vamos ocupar as igrejas?
– Vamos ocupar as igrejas!
– Afinal, o movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos também ocupou!
– Éééééé!
– Mas peraí, o movimento ocupou locais públicos em que os negros não eram permitidos…
– Sim! Mas as igrejas são nossas! Tudo é nosso.
– As igrejas deveriam ser comunidades abertas, coletivas e acolhedoras, não as instituições controladoras que são!
– Sim! Abaixo o controle!
– Abaixo o controle!!!
– Mas peraí, ocupar também não é controlar?
– Claro que é, mas do lado certo!
– Na ocupação, os controlados viram controladores!
– Sim! É a revanche dos controlados!
– A revanche dos controlados!
– A gente junta o máximo de pessoas que conseguir, chega lá e confronta a liderança!
– Enfia o dedo na cara dela e diz: Abaixo o controle! Abaixo o conservadorismo moralista! Queremos transformação social!
– Transformação social!
– A gente senta no chão e fica até o pastor fazer o que a gente exige!
– É!
– Não vai ser lindo? Todos aqueles pastores sendo obrigados a negociar com a galera da ocupação…
– Mas peraí. A gente vai obrigar os caras?
– Claro que vai! Ocupação é isso: a gente reivindica com a força um lugar que é nosso. A gente diz que só sai de lá se aceitarem nossas ideias.
– Tipo um sequestro?
– É, tipo um sequestro: o sequestro do lugar.
– E se estiver rolando um estudo bíblico na hora?
– Quem liga pra estudo bíblico? O que queremos é transformação social!
– Transformação social!
– Imagine a cara dos pastores, desesperados?
– Vai ser lindo! Viva o desespero!
– Viva o desespero!
– E se chamarem a polícia?
– Aí vai ser uma pena. 
– Mas vale correr o risco!
– E se alguém sair no braço? E se alguém se ferir?
– Vale correr o risco! 
– E se alguém ficar nervoso? Tiver um ataque cardíaco?
– Vale correr o risco!
– Mas peraí. Mesmo que esses riscos não existissem… Não seria melhor a gente conversar amigavelmente com os caras? Tipo, a gente envia convites para apresentar nosso ministério a cada igreja. E eles voluntariamente nos receberiam se se identificassem com nossa proposta. Chegar chegando assim, um monte de gente enfiando o pé na porta, interrompendo a reunião, entrando e falando... Não é um troço agressivo, antipático? Não é uso de força bruta?
– Força bruta sim, mas do lado certo! Não viu que Jesus expulsou os vendedores do templo?
– Sim, mas ele é o dono da igreja…
– Nós também somos! A igreja é nossa!
– A igreja é nossa!
– Mas peraí! Isso não fere o vínculo do amor? O próprio amor que vocês disseram que está faltando nas igrejas?
– Cara, você é muito retrógrado mesmo, viu? Sai daqui. Vamos ocupar!
– Vamos ocupar!!! Vou já já postar um texto no Facebook.
– E se alguém reclamar dizendo que é incitação ao crime? Afinal, não se pode interromper culto…
– Aí a gente diz que as pessoas não sabem ler, que era tudo simbólico! 
– Ah! Genial! Assim, o primeiro que ocupar, se der tudo errado, nem vai poder culpar a gente!
– Exato! Vejo que você já pensa como um verdadeiro revolucionário.
– Ocupação real ou simbólica já!
– Real ou simbólica já!



E todos saem felizes, crentes de que vão mudar a igreja e o mundo.

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* Curioso sobre a fonte das ideias revolucionárias? É só dar uma olhada no Facebook de Ronilso Pacheco.

19 abril 2016

Aos anti-Bolsonaro da vez

Vejo Bolsonaro apanhando feio no cantinho por causa daquela louvação do coronel Brilhante Ustra na Câmara, e já me vem aquela velha simpatia girardiana pelo bode expiatório nacional... Vamos lá.

Quem ficou todo crispado de horror por causa dos defensores do coronel Ustra não atentou para um "pequeno" detalhe que só os que têm amigos dos dois lados (e digo-o com alegria) poderiam levantar. É o seguinte: muitos deles (no caso, todos os meus amigos bolsonaristas, graças a Deus) acreditam que o coronel não torturou ninguém, nem mandou torturar. Ou seja, muitos não acham necessariamente que Bolsonaro citou um torturador. O próprio Ustra, em entrevista à Zero Hora, negou que tenha ocorrido tortura sob sua jurisdição durante os três anos e quatro meses em que chefiou o DOI-CODI.

Sinceramente? Acho dificílimo crer nessa alegação de inocência. Sempre lembro de Nelson Rodrigues, uma de minhas maiores admirações (se não a maior) nas letras nacionais. Quando ele falava em liberdade, era liberdade mesmo, "no duro". Por isso, execrava o comunismo tão exaltado em seus dias entre a classe intelectual. (E não se incomodava de ser um pária em seu meio. Ou melhor, ele se incomodava, mas não colocava esse sentimento acima da urgência de dizer a verdade.) Tinha muitos amigos militares no poder e defendia publicamente o regime, porque eles próprios lhe garantiam que não havia tortura. Mas, depois que seu filho Nelsinho foi preso e respondeu "sim" à pergunta fatídica, caiu em si. (É fato também: houve militantes que saíram ilesos da prisão, mas mentiram ao mencionar tortura. Houve mentiras dos dois lados. Por isso, prefiro isentar-me de assumir incondicionalmente um deles.)

Mas entenda que tem gente que acredita em Ustra. Ou seja: nessa questão, nem todo defensor de Bolsonaro será um defensor de torturadores. Moral da história: se você não gosta de ser estigmatizado nas suas posturas políticas, não estigmatize o outro. É regra de ouro que faz bem à alma.